Rossio-Loures: a audaciosa fuga de Rogério (1911)
A 28 de julho de 1911, o delegado do Procurador da República enviou ao administrador do concelho de Loures um ofício que não deixava margem para demoras. Na comunicação, solicitava-se a captura de um preso evadido que, segundo constava, andaria a vaguear pela região.
O fugitivo, de nome Rogério, era natural do Bombarral. Fora condenado, nas Caldas da Rainha, por tentativa frustrada de homicídio premeditado, a uma pesada pena de oito anos de prisão maior celular, seguidos de doze anos de degredo – ou, em alternativa, a vinte e seis anos de deportação.
As autoridades descreviam-no como um indivíduo pouco dado ao trabalho, de cerca de quarenta anos. Media 1,73 metros, tinha compleição robusta, embora algo magra, e presumia-se de valente. A testa era grande, o rosto comprido e largo, a tez pouco trigueira. Conservava marcas de bexigas na cara e uma cicatriz no lábio inferior. Usava bigode castanho, era ligeiramente marreco das costas e trazia ainda sinais de uma forte canelada na perna esquerda.
À data da fuga, vestia calças de cotim, casaco escuro, barrete e botas amarelas de chagrém, encontrando-se todo o vestuário bastante gasto pelo uso.
Dado à embriaguez, Rogério era presença habitual nas tabernas. As informações eram claras: Rogério era tido como mau, desordeiro, atrevido e perigoso – tornando-se perigosíssimo quando embriagado. Ainda assim, não parecia possuir grande astúcia. A sua própria indiscrição denunciava-o com facilidade, pois nem sequer tinha o cuidado de se disfarçar ou encobrir.
A fuga ocorrera de forma inesperada. Por volta das 10h30, ao chegar à estação do Rossio, Rogério conseguira escapar-se nas imediações do urinol da Calçada do Duque. Bastou um breve instante para desaparecer no movimento da cidade. Foi então dado o alerta – o homem encontrava-se a monte e, a confirmarem-se as suspeitas, estaria escondido no concelho de Loures. Solicitava-se, por isso, às autoridades locais a sua pronta recaptura.


CML – AML – Subfundo Administração do Concelho de Loures, 1911