E SE FOSSE HOJE?
A Mise-en-Scène do Apoio a António de Oliveira Salazar (1945)
A 9 de abril de 1945, o Governo Civil do Distrito de Lisboa remeteu uma circular confidencial aos presidentes de câmara, anunciando a preparação, na capital, de uma grande manifestação nacional de apoio ao regime e ao Presidente do Conselho, António de Oliveira Salazar. A circular determinava a presença formal dos municípios – com estandartes e com todos os vereadores – e previa ainda a participação de "elementos oficiais", "nacionalistas de reconhecida categoria", organizações desportivas, operários e lavoura, entre outros setores. Informava, também, que os organismos oficiais já estavam a organizar as suas delegações.
Para planear o transporte até Lisboa, requeria-se, com urgência, que a Câmara Municipal de Loures indicasse o número de pessoas a deslocar e os locais de embarque no concelho. Sublinhava-se igualmente que o objetivo específico da manifestação permaneceria reservado até momento oportuno. A exigência de presença municipal revela que as câmaras foram, de facto, convocadas — e, na prática, cooptadas — para garantir a logística de uma manifestação política de âmbito nacional, diluindo a fronteira – hoje tida como inquestionável – entre administração local e propaganda governamental. A representação municipal surgia, assim, convertida em instrumento de legitimação do poder central. O levantamento urgente de participantes e a organização dos embarques evidenciavam uma mobilização institucionalmente preparada e uma coreografia dirigida pelo Estado quanto à presença e à visibilidade dos diferentes corpos sociais – dinâmica dificilmente compatível com a espontaneidade cívica associada a manifestações.
Neste quadro, o "controlo de pessoas e deslocações" traduzia-se na gestão da massa humana presente — da sua dimensão e composição social — e, no plano ético-administrativo, a afetação de recursos municipais (tempo, pessoal, verbas, viaturas) a uma iniciativa de apoio explícito ao chefe do governo, comprometia a neutralidade da administração e confirmava uso de meios públicos para fins políticos. A instrução do Governo Civil de Lisboa reafirmava ainda uma hierarquia que subordinava a agenda municipal aos objetivos do executivo central; a reserva quanto ao "objetivo específico" adensava a opacidade e fragilizava o consentimento informado e a liberdade de participação. Paralelamente, a enumeração e convocação administrativa de segmentos sociais esvaziavam a pluralidade e convertiam a participação municipal não num gesto cívico, mas numa performance política organizada. A presença das câmaras, com o seu aparato institucional, contribuía, assim, para construir e projetar uma imagem pública de consenso encenado pelo Estado.

CML – AML – Série Correspondência Confidencial, 1945